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2 ✦ A BATALHA QUE MUITOS CRISTÃOS IGNORAM ✦

  • 11 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 14 de mar.

Efésios 6.10–20


Existe uma realidade curiosa dentro do cristianismo contemporâneo. Ao mesmo tempo em que a Bíblia fala claramente sobre uma batalha espiritual, muitos cristãos vivem como se essa batalha simplesmente não existisse. Outros fazem o oposto: transformam essa batalha em algo quase mitológico, como se Deus e o diabo fossem rivais de forças equivalentes. Curiosamente, ambos os erros acabam nos afastando daquilo que o apóstolo Paulo realmente escreveu.

Quando Paulo chega ao final da carta aos Efésios, ele faz algo que o teólogo Martyn Lloyd-Jones descreveu como uma convocação. Não é apenas um conselho. Não é uma sugestão. É um chamado.


“Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder.” (Ef 6.10)

Primeiro, Paulo apresenta o quadro geral da batalha (Ef 6.10–13). Depois, ele entra nos detalhes da armadura de Deus (Ef 6.14–20). Essa ordem é importante. Antes de explicar como lutar, Paulo deixa claro que a luta existe. E se é uma convocação, então não é algo opcional. O cristão não escolhe se participará da batalha espiritual. Ele apenas escolhe se lutará preparado ou despreparado.


O problema começa na forma como enxergamos Deus


A maneira como entendemos Deus e as Escrituras determina como interpretamos a batalha espiritual. Se fizéssemos uma pesquisa informal entre cristãos brasileiros, provavelmente encontraríamos dois extremos. O primeiro grupo diria algo como:


“Cristo já venceu tudo. Então não precisamos nos preocupar com batalha espiritual.”

Essa afirmação contém uma verdade — Cristo realmente venceu.

Mas, paradoxalmente, ela pode levar à indiferença espiritual. Quando isso acontece, a vigilância diminui. A oração se torna superficial. O discernimento espiritual desaparece. Ignorar a batalha é, na prática, baixar a guarda.


O outro extremo: dar ao diabo mais poder do que ele tem


Existe também o outro lado. Muitos cristãos enxergam o diabo quase como um rival de Deus — uma espécie de força oposta que luta em igualdade. Essa ideia não vem da Bíblia. Ela vem, em grande parte, da cultura. Filmes, séries e histórias populares frequentemente retratam o diabo como um personagem poderoso, carismático e estrategista.


Obras como O Advogado do Diabo, Constantine e a série Supernatural ajudaram a consolidar essa imagem no imaginário popular. O problema é que essa visão se aproxima mais de uma antiga filosofia chamada maniqueísmo, que defendia a existência de dois poderes eternos em conflito: um do bem e outro do mal.


O cristianismo nunca ensinou isso. Deus é soberano! Satanás não é um rival eterno de Deus. Ele é uma criatura.


A cultura sempre reinterpretou o diabo


Se observarmos a história, veremos que cada época imaginou o diabo de maneira diferente:

  • Na Idade Média, ele era visto principalmente como um tentador moral.

  • No século XIX, influenciado pela literatura romântica, ele passou a aparecer como um rebelde trágico.

  • No século XX, tornou-se frequentemente um manipulador psicológico, ligado a paranoia, conspiração e controle mental.

  • Já no século XXI, muitas representações são quase satíricas: o diabo aparece como um personagem burocrático, irônico ou até cômico.


Mas aqui é importante fazer uma pausa. Isso não significa que cristãos precisam demonizar a cultura. Filmes, literatura e arte sempre refletiram as inquietações humanas. O problema começa quando a cultura se torna o filtro através do qual lemos a Bíblia. O caminho deveria ser o contrário, não devemos interpretar as Escrituras pela cultura, devemos interpretar a cultura à luz das Escrituras.


O impulso humano de culpar alguém


Existe algo profundamente humano em tudo isso. Quando algo dá errado, quase sempre procuramos um culpado fora de nós mesmos. Culpamos:

  • outras pessoas

  • a sociedade

  • as circunstâncias

  • Deus

  • ou até o diabo


Essa tendência não aparece apenas na religião, ela também aparece na literatura. O escritor brasileiro Machado de Assis, em O Alienista, explora exatamente essa dificuldade humana de reconhecer a própria loucura. O autor russo Fiódor Dostoiévski, em Sonho de um Homem Ridículo, mergulha ainda mais fundo na consciência humana e na maneira como lidamos com culpa e responsabilidade.


Por isso, quando falamos sobre batalha espiritual, precisamos manter equilíbrio. O diabo não é inocente nessa história, mas também não podemos transferir para ele toda a responsabilidade pelas escolhas humanas.


Ignorar a batalha é baixar a guarda


Quando a igreja ignora a realidade da batalha espiritual, algo perigoso acontece, começamos a acreditar que não existe oposição real ao evangelho. O mal no mundo passa a ser explicado apenas como resultado de erros humanos, mas a Bíblia apresenta um quadro mais complexo. Há responsabilidade humana, mas também existe oposição espiritual real.


A igreja não é apenas uma enfermaria


A igreja é, sim, um lugar de cura. Feridos são tratados, pessoas quebradas são restauradas, vidas são reconstruídas! Mas a igreja nunca foi pensada para ser apenas uma enfermaria espiritual onde passamos a vida inteira nos recuperando, somos curados para voltar ao campo de batalha.


O exemplo de Jó


O livro de Jó é frequentemente reduzido a uma história sobre restituição, como se fosse apenas um testemunho de alguém que perdeu tudo e depois recebeu tudo de volta, mas o livro é muito mais profundo do que isso: logo no início da narrativa, somos levados a um cenário espiritual invisível (Jó 1.1–12), mais adiante, Deus confronta diretamente as limitações da compreensão humana (Jó 38.1–5; Jó 40.3–10).


O foco do livro não é simplesmente prosperidade, é a soberania de Deus diante de uma realidade espiritual muito maior do que conseguimos compreender.


O perigo da indiferença espiritual


Talvez uma das maiores vitórias do inimigo seja fazer com que os cristãos simplesmente esqueçam que existe uma batalha. Quando isso acontece, a vida passa a girar apenas em torno de preocupações imediatas, como o que comer, o que beber, como se divertir, como crescer na carreira, como garantir estabilidade financeira ou como planejar uma aposentadoria tranquila. Nenhuma dessas coisas é necessariamente errada, mas o problema surge quando elas se tornam o centro da vida. Porque nesse ponto o inimigo nem precisa nos convencer a fazer a vontade dele, basta que façamos apenas a nossa própria vontade.

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